Mandela saiu em liberdade há 20 anos

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1491711

JOSÉ MIGUEL GASPAR

“Defendo o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todos convivam em harmonia e oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver, que espero alcançar. Mas, se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”. Em 1964 Mandela enfrentava a própria promessa: acusado de conspiração e sabotagem, é emparedado na prisão perpétua. Tinha 46 anos, casado, com filhos. Nos 27 anos seguintes perde tudo, até direito a ter nome – é tratado pelo número: 46664, número entalado na quadratura da besta.

Christo foi à festa em sua casa

47 anos depois desse dia. Filhos e netos, a ex-mulher Winnie, amigos e companheiros do Congresso Nacional Africano (ANC), antigos e novos activistas políticos, agentes sociais, membros da “nação arco-íris”: dezenas acorreram ontem à sua casa em Joanesburgo para a festa privada da liberdade.

Mas entre aqueles havia um, com o especial nome de Christo, que lhe deu a mão: é Christo Brand, guarda prisional de Robben Island, uma ilha mais terrível que Alcatraz, e que teve 27 anos para fazer brotar ali a amizade. “Nunca conheci ninguém como Mandela”, disse ontem Christo à Reuters, “e creio que nunca vou conhecer”.

Um país inteiro saiu da prisão

Há 20 anos, na manhã de 11 de Fevereiro de 1990, quando ele saiu de mão dada com Winnie, erguido o punho direito, não foi só um homem concreto que foi libertado; foi um país inteiro que festejou com socos no ar a queda do regime segregado pelo apartheid e pelos seus genocídios morais. Nos quatro anos seguintes, numa enxurrada, tudo iria mudar: o ANC e outros partidos plurais são legalizados, Mandela ascende a líder, ganha o Nobel da Paz, vence eleições e é empossado (1994) primeiro presidente negro da África do Sul.

Hoje, o ANC espera reunir “pelo menos 20 mil pessoas ao redor da prisão de Robben Island”, naquele que será um fortíssimo gesto simbólico de cerco à iniquidade.

A melhor vingança é o perdão

Com tão pesado passado, com 91 anos – faz 92 a 18 de Julho, o “Dia Mandela” na África do Sul -, hoje, o Madiba, nome reverencial que vem do clã a que pertence, está naturalmente afastado da vida política – “mas ainda lê pelo menos quatro jornais por dia”, diz um porta-voz da Fundação Nelson Mandela.

Quem o quiser perceber de uma penada, Clint Eastwood explica-o em “Invictus”, ‘biopic’ de um ano na vida de Mandela (Morgan Freeman, cheio de gravidade e leveza; está nomeado para Oscar). É um estudo fascinante da liderança política de um homem que tinha um prestígio moral sobrenatural e que usou o poder coercivo dos símbolos (o rugby; em 1995 a África do Sul foi campeã mundial) para unificar um país e provar que a união é mais do que a mera soma das partes. E assim se fez a sua vingança: com reconciliação, cheia de perdão.

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